DORMINDO DURANTE O VOO, COMO PODEM?

Algumas fragatas passam até dez dias voando sobre as águas, dormindo em média 42 minutos por dia

Algumas fragatas passam até dez dias voando sobre as águas, dormindo em média 42 minutos por dia

Estudos revelam que certas aves voam centenas de quilômetros sem tocar a terra. Isso só é possível porque elas conseguem dormir em pleno voo

Apesar de estranho certas aves são capazes de dormir em pleno voo. Estudos realizados nas ilhas Galápagos descobriram que tal façanha é possível, porque determinadas espécies conseguem descansar cada hemisfério do cérebro alternadamente ou simultaneamente, que lhes permitem manter o controle do voo planando.

O especialista Niels Rattenborg, do Instituto Max Planck de Ornitologia na Alemanha, fez estudos sobre o sono em humanos durante 10 anos antes de começar a se dedicar às aves. Niels queria entender como era  possível algumas aves voarem sem parar durante vários dias, sem a perda do controle aerodinâmico.  Finalmente Niels e seus colegas biólogos chegaram a uma conclusão de como é possível realizar tal façanha.

Niels Rattenborg pesquisa o sono dos pássaros há muitos anos

O americano de origem dinamarquesa chegou ao sono dos pássaros através de seu amor pelas aves e de um estágio num laboratório de sono (humano). A combinação de ambos resultou em questões de pesquisa totalmente inéditas: como os pássaros dormem realmente, e por que, em matéria de sono, eles conseguem realizar coisas que os humanos não podem?

Niels, coordenou a equipe que demonstrou pela primeira vez que determinadas aves dormem durante o voo em períodos muito breves.

“Elas dormem com um hemisfério cerebral acordado e outras vezes dormem nos dois hemisférios, sem interferir no controle aerodinâmico de seus voos”.


Moradores do Ártico, maçaricos-de-colete  (Calidris melanotos) não dormem para copular / Foto divulgação

De fato, em seu habitat natural muitas espécies de aves não parecem ir muito longe com o sono: muitas vezes não há tempo para tal. Durante o período de acasalamento de três semanas, o maçarico-de-colete quase não dorme, permitindo-se, no máximo, uma hora diária de cochilo intenso.

A espécie vive na região do Ártico. Durante o acasalamento, os machos, que não têm nada a ver com a criação dos filhotes, procuram copular com o maior número possível de fêmeas. “Eles só precisam competir 24 horas por dia pelas fêmeas. E podem fazê-lo, porque durante o verão ártico o sol está praticamente o tempo todo no céu”, explica o pesquisador.

Rattenborg e outros observadores de pássaros no Instituto Max Planck de Seewiesen confirmaram que essa corte de 24 horas vale a pena para os pássaros: “Os machos que menos dormem geram a maior quantidade de filhotes. Do ponto de vista evolutivo, eles se adaptaram extremamente bem.” Nessa espécie, pouco sono é uma clara vantagem, e portanto conseguiu se impor na evolução.


Por que a escolha das Fragatas de Galápagos para os estudos?

Sebastián Cruz, um biólogo equatoriano especializado em aves marinhas, é coautor do estudo. Ele desempenhou um papel determinante na escolha da espécie que seria estudada: a fragata de Galápagos.

Fregata / bbc.com

As fragatas são aves Suliformes (tradicionalmente classificadas como Pelecaniformes) pertencentes à família Fregatidae e ao seu único género Fregata. O seu nome comum está relacionado com o seu hábito de assaltar outras aves marinhas, tal como as fragatas de guerra.

São aves de grande porte, com asas compridas e estreitas que representam a menor superfície de asa por unidade de peso do mundo das aves. Têm cerca de 1 metro de comprimento, mais de dois de envergadura e uma cauda longa e bifurcada.

A sua plumagem é geralmente preta ou preta e branco e na estação de reprodução, o macho é capaz de distender um saco gular vermelho.

As fragatas não conseguem andar em terra, nadar nem levantar voo de uma superfície plana. São por isso aves pelágicas que só pousam em penhascos durante a época de reprodução. São no entanto aves extremamente rápidas em voo picado sobre o mar ou sobre outras aves.

“Essas aves de grande porte se alimentam exclusivamente no mar e realizam viagens de vários dias de duração sem nenhuma parada, sempre voando”, comenta Sebastián Cruz. Mas a principal razão para os pesquisadores terem escolhido as Fragatas, é que “ao contrário de outras aves marinhas, essas espécies não possuem penas impermeáveis, portanto não conseguem descansar  na superfície do mar, e neste caso podem se afogar caso suas penas absorvam muita água”.

Outro fator que favorece, é que são grandes o bastante para suportarem o peso dos equipamentos de pesquisa (1 leitor de ondas cerebrais e 1 GPS). Segundo  Cruz, elas tentam cobrir a maior área possível em busca de comida no mar, voando em um grande círculo para gastar a menor quantidade possível de energia. Para isto, elas aproveitam correntes de ar e se beneficiam de sua morfologia peculiar: um corpo pequeno e asas muito grandes. “Um voo lento, mas eficaz é a estratégia utilizada pelas fragatas. Ganham bastante altitude com centenas de metros, com correntes de ar ascendentes e depois se deslocam para a direção desejada, planando de forma a ganhar distância e perder altitude”.


Partes do cérebro

Segundo Niels Rattenborg, os dispositivos comprovaram que elas dormem de maneiras diferentes. “ Um jeito é chamado de sono de ondas lentas, porque o cérebro gera esse tipo de onda que pode ser detectada em um eletroencefalograma”, explica.

Isto poderá ocorrer em ambos os hemisférios cerebrais ou em apenas um. Quando ocorre em apenas um se chama sono uni-hemisférico. Neste caso, o olho oposto ao hemisfério cerebral permanece “acordado”.

Rattenborg, demostrou anteriormente em outro estudo, que os patos que estão na parte mais externa de um grupo, expostos a riscos, dormem com um olho aberto. Os outros que ficam no centro do grupo, mais tranquilos e seguros, dormem com os dois hemisférios de uma só vez.

As fragatas têm que passar muito tempo voando em busca de alimento no mar; um dispositivo GPS registrou suas trajetórias

Já o segundo tipo de sono das aves, podem ser o de “movimentos oculares rápidos”, ou “REM”, de ondas mais curtas e rápidas. “Muitos pensavam que as aves dormiam só de forma uni-hemisférica”, disse Rattenborg.  Mas os registros de ondas cerebrais mostraram que as fragatas também podem dormir com os dois hemisférios simultaneamente.

A conclusão de que as fragatas dormem no máximo 42 minutos por dia, deixaram os pesquisadores perplexos. “ Se conseguem realizar tantos tipos de sono ao voar, por que dormem tão pouco? Questiona Rattenborg.

Enquanto a maioria das espécies incluindo os seres humanos necessita de muitas horas de sono, ainda não se sabe ao certo, como explicar porque as fragatas se adaptaram a funcionar com tão pouco sono.

“Baseando-se em nosso estudo do sono uni-hemisférico dos patos, Masako Tamaki e seus colegas (da Brown University dos Estados Unidos) publicaram um trabalho explicando que quando as pessoas estão em um ambiente novo, o hemisfério esquerdo dorme de forma menos profunda e responde mais a sons que o hemisfério direito, somente na primeira noite”, diz.

“Isso sugere que, como os patos, os seres humanos têm a capacidade de acordar ao menos parcialmente a metade de seu cérebro em resposta a circunstâncias potencialmente arriscadas.”

fonte:http://www.bbc.com/portuguese/geral-37687419

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