Migração alada: um comportamento encantador

Maçarico-de-papo-vermelho-Calidris-canutus

Por: Karlla Vanessa de Camargo Barbosa
Há 836 espécies de aves migratórias catalogadas pelos cientistas no mundo todo. Um grande número delas é protegido por acordos internacionais. Cerca de 230 espécies de aves migram sem sair da América do Sul ( (Newton 2008).

Maçarico-de-papo-vermelho-Calidris-canutusBy-©-Hans-Hillewaert-CC-BY-SA-4.0-httpscommons.wikimedia.org

O segredo da migração foi desvendado apenas no séc. XIX (1822) quando uma cegonha foi encontrada na Alemanha com flecha da África sub-saariana (3mil km de distância). Até então existiam várias teorias: que os gansos nasciam nas arvores toda primavera; que as andorinhas desapareciam no inverno porque se enterravam na argila no fundo dos lagos e rios; que no inverno as aves iam para lua; ou mesmo que elas se transformavam em outras aves em diferentes períodos do ano.

 

Tesourinha (Tyrannus savana)Migrante inconfundível, passa em grupos de até centenas de indivíduos, nos meses de setembro e outubro (foto: Maria Cecilia Masiero)

A migração ainda tem seus segredos, mas agora já sabemos que a migração nada mais é do que movimentos regulares, na mesma época do ano com destino certo, ocorrendo entre duas áreas: um local de reprodução e outro de invernada (ou também chamado de repouso reprodutivo). Esses movimentos permitem que as aves busquem recurso em lugares distantes ou abrigo para fugir de variações climáticas.

As aves possuem grande mobilidade e controle sobre seus movimentos, além de serem dotadas de habilidades de orientação e navegação, sendo hábeis em lembrar e reencontrar locais previamente visitados

Algumas espécies são capazes de alcançar áreas de milhares de quilômetros distantes entre si para passar períodos de reprodução e não-reprodução.

 

Observações do ambiente dizem a elas quando migrar: duração do dia, mudanças de temperatura ou oferta de alimento, por exemplo.

Mas como as aves migram?

Irerê realiza migrações sazonais no sul do país 

Com base em pistas geomagnéticas e celestiais (o sol de dia e as estrelas à noite), vai depender da espécie. Existem dois tipos de tempo para a migração: espécies que migram de dia e espécies que migram de noite. Espécies pequenas preferem migrar durante a noite para se esconder de predadores, já as espécies maiores, como rapinantes, podem migrar tranquilamente durante o dia. As aves migratórias têm que se preocupar também com seu cronograma anual, já que têm que fazer mudas de penas, reproduzir e migrar.

Ruby-throated_Hummingbird imagem Audubon

Elas precisam estar preparadas, pois perdem muita energia durante a migração e por isso fazem reserva de gordura antes de migrar. A exemplo dessa necessidade, o Ruby-throated Hummingbird (beija-flor norte americano)

em 20h voa 965km e perde ¼ do peso do seu corpo, ou ainda o Bar-tailed Godwit (ave limícola que migra pelo Oceano Pacífico) que perde mais da metade de seu peso em oito dias e 11mil km de migração. E se as aves migratórias não chegam no tempo certo no seu local de destino, podem perder o tempo certo da oferta de alimento no seu destino.

No Brasil a maioria das aves migrantes realizam movimentos altitudinais e austrais (a espécie se reproduz na região temperada da América do Sul e migra para o norte durante o inverno austral). Apesar da migração austral ser uma das maiores no país e de cerca de um terço desses migrantes serem da família Tyrannidae, o sistema ainda é muito pouco estudado e compreendido.

Principe-Pyrocephalus-rubinu foto: JR Cortez fotografia

Precisamos de mais estudos no Brasil para conhecermos melhor nossas espécies migratórias e esse comportamento cheio de mistérios e encantos.

Karlla Vanessa de Camargo Barbosa –  Bióloga, mestre em conservação ambiental (ESCAS-IPÊ) e doutoranda em zoologia (UNESP)  Projeto PhD – Dissertação de doutoramento intitulado: “Aves migratórias Austral e urbanização na Mata Atlântica do Brasil”
 https://www.facebook.com/karlla.bio

 

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